Somos todos imigrantes

Os mais chegados sabem que o Brexit fez com que aceleracessemos a nossa vinda para a Inglaterra.

Era uma sexta-feira, desembarcávamos na Itália com a notícia bombástica do resultado do referendo inglês.

A única coisa que vinha às nossas mentes era: “a hora é agora, corre!”

E como corremos! Desmontamos quatro vidas em 6 meses para remontar aqui de volta. Todo dia era alguma coisa sobre a mudança para pensar. No meio disso tudo ainda tinha todo o estágio final da gestação da Liv. Olhando para trás nem sei como conseguimos.

Eis que moramos aqui há 14 meses e não há uma só semana que não lemos ou assistimos algo relacionado ao Brexit.

Muitas são as críticas, as contestações públicas, as manifestações, os vacilos do partido conservador (chamado ‘carinhosamente’de Tory). Diferentes pontos de vistas estão sempre em choque quando o assunto é a saída (ou a permanência) do Reino Unido na Comunidade Europeia.

Essa decisão teve um impacto direto na vida pública, na economia, na dinâmica na maior cidade do Reino Unido: Londres.

O prefeito Sadiq Khan, do partido trabalhista e primeiro muçulmano a assumir essa cadeira, além de ter nascido no nosso bairro, está sempre publicando o efeito negativo que o Brexit teria na economia londrina, colocando-se contra essa política. Essa bandeira é levantada por um prefeito de família paquistanesa. A História tem um jeito curioso de montar seus percursos. No momento que o Brexit acontece a maior cidade da Bretanha é governada por…. um imigrante muçulmano. No mínimo curioso.

LONDON IS OPEN

Temendo negativa à economia da capital e maior cidade do país, Sadiq Khan, lançou em 2016 uma campanha para promover para todo o mundo o quanto Londres está – e continua – aberta para estrangeiros, seus capitais e negócios. Essa campanha visa não mexer com a economia da cidade que sobrevive, entre outras coisas, pela mão de obra de mais de um milhão de imigrantes que vivem aqui.

“Londres está aberta para investimentos e negócios com todo o mundo”

A verdade é que o dia do referendo caiu uma chuva torrencial que impediu que muitos cidadãos pudessem ir às urnas expor sua vontade. Com isso, foi votada a saída do bloco europeu. Será que poderia ter sido diferente?

De lá para cá a economia deu uma oscilada e muitos imigrantes resolveram voltar para seus países de origem temendo o que viria por aí…. isso, aqui em Londres pelo menos, teve um efeito direto no número de vagas de trabalho em aberto. Não há um lugar da cidade que não esteja precisando de mão de obra. Os empregadores tiveram que mudar suas estratégias de contratação, aumentar os salários oferecidos foi uma delas. Ponto!

A turma que defende o Brexit alega que os imigrantes quebraram o país. Que graças aos imigrantes a economia inglesa naufragou. A verdade é que a coisa não é bem assim.

Os imigrantes trabalham. Trabalham muito. A gente até brinca que bastam três poloneses para você colocar uma casa em pé (referindo-se à capacidade e experiência nesse tipo de serviço). O trabalho imigrante representa grande parte da receita pública. O trabalho imigrante faz com que o NHS continue andando. Muitos médicos e enfermeiros são imigrantes. No nosso posto de saúde as duas médicas que me atendem são imigrantes (paquistanesa e coreana), o pai de uma amiguinha da Edda é médico. Veio do Egito. Tem a Joana, polonesa e enfermeira. Então péra lá ao dizer que os imigrantes estão atrasando o país.

Outro senso-comum de alguns por aqui é dizer que imigrante vem pra cá para pedir benefício e viver às custas do governo. Muitos imigrantes, inclusive, dizem isso. No entanto, há inúmeras pesquisas publicadas contestando essa informação. A grande parte das pessoas que vivem de benefício são nascidas no Reino Unido. O que faz com que essa afirmação seja justamente o contrário. É o imigrante que está contribuindo para que o inglês receba o benefício. Irônico, não?

A questão é que o futuro é incerto, embora possamos perceber nas entrelinhas que o tiro saiu pela culatra, ou seja, os desdobramentos do Brexit mostram uma economia instável e um indicativo de inflação que foge do esperado.

Ao meu ver, se o Brexit realmente se concretizar do jeito que foi idealizado, exposto e trabalhado pelo partido conservador, não testarão outras alternativas para o mercado de trabalho que não buscar bons profissionais em outros países do mundo. Assim, acreditamos que o visto de trabalho será de alguma forma facilitado para profissionais capacitados.

Apesar de toda a incerteza gerada pelo Brexit, muitos imigrantes continuam chegando de toda a Europa. Segundo dados publicados semana passada, o maior número de imigrantes vêm da Polônia, seguidos por romenos, indianos, italianos e portugueses (esses últimos são compostos por muitos brasileiros que possuem dupla cidadania). São 6.2 milhões de estrangeiros vivendo aqui!

Iniciamos apenas um novo capítulo nessa terra composta por imigrantes desde os tempos antigos.

Somos todos imigrantes

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