Meu nome é Zé Pequeno

Quando chegamos aqui, uma das primeiras coisas que notei foi a dificuldade que as pessoas tinham (e ainda têm) em pronunciar o meu nome. Ro-dri-go. Nome bastante comum entre brasileiros, espanhóis, italianos até, mas quase impossível de ser pronunciados por anglófonos.

Especialmente porque há várias pronúncias possíveis, como vemos a seguir:

Em Portugal: /ʁu.ˈdɾi.ɡu/
No norte de Portugal: /ru.ˈdɾi.ɡu/
No Brasil: /ʁo.ˈdɾi.ɡu/
No sudeste do Brasil: /ho.ˈdɾi.ɡo/
No sul do Brasil: /ʀo.ˈdɾi.ɡo/

Pra eles, “r AA d r ee g oh“.

E não é exclusividade do meu nome, claro. Tenho conhecidos que também vieram de outros países, com seus nomes “diferentes”, e que também enfrentam a mesma dificuldade que eu.

Cada vez que eu ia fazer um cadastro (banco, operadora de celular etc), eles me pediam: “Poderia soletrar por favor?”

Bom, precisei (e ainda preciso) entender. Apesar da raiz do meu nome não ser latina, não é muito simples para inglês dobrar a língua com tantas consoantes e vogais.

O caso é tão sério que pensei em mudar o meu nome definitivamente. Sei lá, transliterar pra Roderick ou algo assim. Isso é possível pela lei inglesa – bastam alguns trâmites e pronto!, seu nome é mudado para sempre. Mas aí pensei nos problemas familiares (minha mãe ia ficar chateada), meus amigos iam estranhar e… eu gosto do meu nome. Tem história, tem significado, tem sonoridade.

Foi então que tive a (não tão) brilhante ideia de começar a me apresentar como Rod (é bastante comum as pessoas se darem apelidos ou encurtarem seus nomes no ambiente de trabalho ou entre amigos). Isso resolveria o meu problema certo? Não precisaria mudar o meu nome (apenas diminuí-lo), e seria simples de ser compreendido, afinal Rod é um nome inglês bem comum.

Ahááááá! Ledo engano, Batman.

Já fui chamado das mais diversas maneiras possíveis (se é que era possível piorar): Brad, Raj, Roger, Rob, Roy – e às vezes, Rod. Eles tentam. Não tem muito jeito.

My name is Rodrigo

Foi então que fiquei me perguntando se isso não seria uma fuga minha ou uma necessidade de aceitação numa cultura diferente da minha, ou um anseio por fazer parte de um grupo ou sociedade. Um pouco da famosa síndrome de vira-lata, sabe?

Há séculos os ingleses recebem pessoas de, literalmente, todos os cantos do planeta Terra. Desde os tempos do Império Romano, uma infinidade de estrangeiros pisa nestas terras e muitos optam por ficar. E talvez por isso mesmo, a “estranheza” do nosso nome esteja mais dentro da gente do que neles. Eles estão acostumados! – Só não conseguem pronunciar, mas estão acostumados.

Numa dessas vezes que me apresentei no telefone como Rod, uma senhora disse que “Rod” era um nome bem inglês, mas que obviamente, eu não era inglês (pelo meu sotaque). Foi quando ela perguntou qual era o meu nome de fato e então eu disse “Rodrigo”. Ao que ela replicou: “Nossa, mas seu nome é tão bonito, vou te chamar de Rodrigo mesmo!” – dobrando a língua o melhor que podia.

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Fiquei com vergonha. Não vergonha do meu nome, mas pela minha postura diante dela. E porque descobri – às vezes tinho mesmo a tal síndrome de vira-lata. O preconceito tava dentro de mim.

Meu nome é meu nome

Tirei a frase acima de um livro chamado The Good Immigrant – O Bom Imigrante. Meu nome é meu nome. Meu nome é quem eu sou. Quando ainda nem existia ultrassom pra saber se era menino ou menina, alguém um dia parou e pensou no meu nome e resolveu atribuí-lo ao bebê que iria nascer.

Hoje se alguém pergunta meu nome, eu digo “Rodrigo” e se a pessoa não entender, eu soletro. Não tem problema.

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Prazer, meu nome é Rodrigo.

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