Ser brasileiro no exterior

Viver no exterior é bom, mas é uma merda. Viver no Brasil é uma merda, mas é bom. – Tom Jobim

Nos tornamos brasileiros… – Cazuza

Não sei se concordo totalmente com estas frases, mas existe um mistério nelas. Ser brasileiro não é trabalho fácil, ainda mais morando no exterior. Mas a verdade é que ser brasileiro no exterior implica em uma série de condições (e provações) que enfrentamos no dia-a-dia, e resolvi listar algumas abaixo.

Não se fala do Brasil nos telejornais

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A não ser que seja uma notícia que cause tremendo impacto nos demais países, ou se for uma notícia muito ruim, como a da turista inglesa baleada no Rio ou a que sumiu no norte do país etc. Algumas vezes fala-se, na divisão de esportes dos telejornais, sobre algum jogador brasileiro ou, mais atualmente, sobre a copa do mundo e quem são as nações com mais chances de faturar o caneco.

Adeus arroz-com-feijão todos os dias

SAO PAULO 21/09/2009 - ECONOMIA OE - Feijao - Arroz - Materia sobre a queda do preco do arroz e do feijao. As imagens foram feitas no restaurante Bolinha. FOTO JONNE RORIZ/AE

Se você, como eu, é (ou era) acostumado ao nosso prato mais típico, esqueça dele por aqui. Arroz é fácil de achar, visto que é um prato comum nas cozinhas de Japão, China, Paquistão e muitos outros. Agora, meu caro conterrâneo, achar feijão não é tão simples assim. Em alguns supermercados encontramos, na parte de “alimentos do mundo” alguns tipos de feijão, especialmente o feijão preto. Ou então em mercadinhos especializados no Brasil, mas que cobram uma nota pelo quilo do grão.

O jeito é se arranjar com outros grãos como grão-de-bico ou lentilha, que são fáceis de achar e custam menos.

Você vai ter o mesmo problema ao tentar achar guaraná. Apenas em restaurantes brasileiros ou portugueses.

O teclado de computador é diferente e não tem acentuação

Acostume-se ao fato de escrever palavras sem acento ou adaptando o texto pelo uso de outros termos (felizmente consegui escrever essa frase sem usar qualquer acento).

Mas “ão”, “é”, “ç” e outros, temos que “colar” de outros textos ou escrever no celular com corretor ortográfico. O que fiz foi criar um pequeno documento “.txt” com os ditongos, acentos, marcações mais comuns e vou apenas “colando” deste arquivo.

Dá trabalho, mas funciona.

Quando você diz que é brasileiro e todo mundo só fala sobre futebol

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Sim, este ainda é o estereótipo do brasileiro, então muita (muita mesmo) gente vai perguntar sobre os jogos da seleção, sobre quem e como são os jogadores, o que o técnico vai usar como tática…

Não dá pra reclamar muito dessa postura porque, além do cafezinho, nosso produto mais famoso são jogadores de futebol. O samba já não tanto.

Aliás, os ingleses adoram futebol. Mesmo. Os hooligans são conhecidos pela sua violência em estádios e nas ruas (mais ou menos como algumas partes das torcidas organizadas no Brasil). Mas quando tem jogo na TV, não se escutam gritos na vizinhança ou fogos de artifício.

E sabe aquele grito entalado na goela daquele gol esperado? Não tem. Nem mesmo os locutores esportivos gritam quando sai gol. Apenas batem palmas e elogiam a qualidade técnica (ou a sorte) do jogador.

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Dificilmente (e bota difícil nisso) encontra-se suco natural e fresco

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Não tem. Esquece. Mesmo que o restaurante diga que é fresco, não é. Saudades daquele suco de laranja de padaria espremido na hora.

Pãozinho francês ou de sal

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Outra coisa que tenho muita saudade do Brasil é o pãozinho. Quentinho então nem se fala. Aqui a gente encontra alguns pães semelhantes, que podem suprir aquela vontade, mas não é a mesma coisa.

O jeito é se virar com esse mesmo ou com pão de forma, amplamente consumido.

Se pode piorar, além do suco fresco e do pãozinho, você vai sentir falta de uma bela coxinha. Recheada com catupiry… Ok, parei por aqui. É muita sofrência.

Música brasileira no rádio

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Outra coisa que praticamente não existe. Digo praticamente porque há algumas rádios de jazz que tocam um pouco de bossa nova. E isso é muito raro, mas muito bom de ouvir. Já falei em outro post aqui sobre o quanto eu gosto de rádio, e ouvir música brasileira no rádio depois de muito tempo é muito especial.

Chuva de verão (e cheiro de terra molhada)

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Do momento em que chegamos aqui (em março de 2017) até o meio do mês passado, foram mais de 400 dias sem ouvir um trovão sequer. Chuvas tropicais aqui são um contrassenso. E realmente ouvir o som de um trovão na Zona Temperada do Norte é bem raro. Infelizmente. Sinto falta do som de uma chuva torrencial, bem como dos relâmpagos e trovões.

Falar português vira acontecimento

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Depois de passar o dia inteiro falando (claro) inglês, você volta pra casa e reencontra sua família. Você pode falar português com eles, claro. E deve. Principalmente com crianças. Estudos comprovam que as crianças conseguem aprender o idioma local sem problemas, mesmo você mantendo sua língua materna em casa. Além do quê, falar a língua materna te traz um alívio e também descansa a cabeça.

Também reencontrar amigos brasileiros, fazer uma festa, comer uma pizza… tudo vira motivo pra você poder novamente falar português.

Ir ao cinema

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Ir ao cinema, dependendo de sua fluência no idioma, pode deixar de ser uma atividade legal. Isso porque você terá que se acostumar ao fato de que não existem filmes dublados em português. E eles também são sem legenda.

Se você curte cinema europeu, os filmes serão legendados em inglês e isso ajuda um pouco.

Na TV também você pode lançar mão deste recurso, com closed captions. O closed caption permite que todos os sons do filme/documentário/programa sejam legendados – boa pedida pra aprender como dizer os sons dos animais ou onomatopeias em inglês.

 

***

Claro que não vivemos chorando e reclamando de saudade das coisas do Brasil, mesmo porque podemos e conseguimos adaptar essas pequenas-grandes coisas de uma maneira ou de outra.

E afinal de contas, algumas outras coisas compensam a ausência das primeiras.

Por exemplo, andar sem preocupações de assalto, sequestro, bala perdida ou algo assim que é tão corriqueiro numa cidade como São Paulo. Ou se alegrar ao ver a primeira abelha voando depois de um longo e rigoroso inverno. Ou perceber que, apesar de maluca, Londres funciona. E bem.

Talvez realmente Tom Jobim tenha razão. E também Cazuza. E Tim Maia. Renato Russo, os Caymmis e por aí vai….

Um comentário em “Ser brasileiro no exterior

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