Síndrome de Pedigree

A gente cresce ouvindo umas coisas e parece que de tanto ouvir tudo aquilo se torna verdade, sabe?

“Brasileiro é trapaceiro”

“Brasileiro quer sempre tirar vantagem”

“Brasileiro é a pior raça que existe”

Quando se mora tão longe do Brasil esses pensamentos e generalizações tomam outras proporções, muitas vezes cruéis.

“Brasileiro tá tudo aqui ilegal”

“Não se mete em comunidade de brasileiro”

“Não ajude brasileiro, você vai se arrepender”

“Brasileiro é a pior raça de imigrante”

Se deparar com esse tipo de pensamento e convicções é triste. Muito triste.

No bairro que moramos tem uma grande comunidade paquistanesa (além de outras comunidades menores como poloneses e ingleses por exemplo). Eu nunca antes na vida tinha convivido com paquistaneses. Mas agora é uma constante: o cara que me atende no corner shop, a moça que é caixa do supermercado, o nosso restaurante preferido do bairro é paquistanês, o rapaz que vende capinhas de celular e por aí vai.

Tooting market e nossos vizinhos amáveis

Eles nem desconfiam, mas aprendi tanto com essas pessoas. Sempre cordiais, atentos e dispostos a te ajudar e a te entender apesar da lacuna que muitas vezes existe entre meu acento e o deles.

Na minha última aula de pronúncia, um senhorzinho paquistanês de 60 anos me abordou sugerindo que continuássemos estudando o idioma, quem sabe até juntos na mesma classe. Ele mora em Londres há 40 anos e estava tentando melhorar sua pronúncia (que é quase caricata e representada em varios programas de humor da TV). Humilde e extremamente respeitoso com as outras culturas esse senhor foi a personificação do que eu já vinha observando em seu povo.

Do outro lado, o intuito do blog, desde a primeira postagem, foi o de ajudar e esclarecer alguns pontos nessa vida de imigrante.

Na contramão de muitos brasileiros que crucificam Gabriel Jesus (tu dum dasss) e Neymar, os ingleses elevaram Harry Cane à categoria de herói nacional (e olha que a copa do mundo nem acabou…), elogiam Lingard e dizem o futebol está voltando pra casa (bela estratégia de marketing, convenhamos…).

A convicção inglesa de que a copa é deles. Será?

Com esses exemplos, acredito que precisamos a começar a nos cuidar mais, nos ajudar mais e criar uma rede de apoio.

Em época de copa do mundo muitos adjetivos vieram à tona, estrangeiros nos elogiando porque trabalhamos duro (working hard é sempre um adjetivo ao se falar de brasileiros por aqui), amam nossos brigadeiros e caipirinhas, acham as mulheres brasileiras lindas (e somos!), nossos cantores têm LPs na vitrine da melhor loja de música do Soho (Tim Maia e Secos e Molhados) e esses exemplos me deram um chacoalhão ao pensar que muitas vezes nós mesmo não achamos isso!

Acho que já passou da hora da gente se valorizar, de criticar sim o que precisa melhorar, mas também de vangloriar nossos feitos, nossas habilidades e as características que faz com que a nossa gente seja bem recebida por tantos outros povos.

Vamos começar por nós…

O caixa do mercado aqui perto de casa é brasileiro. Paulo, na casa dos seus 50 anos, acredita que o Brasil ganhar a copa do mundo vai esconder muitos dos problemas que estamos enfrentando hoje. Eu concordo em partes. Acho que ganhar a copa do mundo também pode ser um significativo momento de reafirmação daquilo que temos de melhor. Pode ser uma alavancada para que a gente comece a gostar do que vemos no espelho,sabe?

Aqui tem raposas, mas nós temos lobo-guará.

Aqui tem corvo, mas nós temos tucano.

Aqui tem neve, mas nós temos praias fantásticas.

Eles têm Shakespeare, nós, Machado.

Eles têm Kate Mossa, nós temos Gisele.

Eles têm tanto… nós também!

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