Mind the gap. (Ou quanto tempo demora uma adaptação)

Mind the gap

 

Essa frase faz parte da rotina de milhares de pessoas que vivem em Londres.

Nos trens, metrô e ônibus o recado é claro: cuidado com o vão.

 

Num dia de chuva, numa plataforma de uma estação de trem antiga eu me vi sozinha e olhando para o chão… O recado estava lá. A mensagem estava lá há três anos sob meus pés: é preciso ter cuidado com o vão.

 

Gap pode ser traduzido como um buraco entre dois objetos, um espaco, uma pausa, um intervalo…

 

como eu nunca percebi isso antes? como eu nunca antes tinha me dado conta de que aquele recado estava lá, dia após dia, querendo me mostrar alguma coisa? querendo me dar um sinal?

 

Desde que me mudei para Londres, muita coisa aconteceu. Ou melhor, tudo aconteceu.

 

Esse espaço de tempo, esses quase três anos de gap foram capazes de me transformar numa pessoa completamente nova.

 

Se fosse possível quantificar uma coisa dessas, diria que as únicas coisas que permanecem iguais são minhas tatuagens e os números dos meus documentos.

 

Todo o resto  novo.

 

Mind the gap eh um aviso para que se tome cuidado ao transitar entre a plataforma e o trem.

Essa travessia, para mim, durou intermináveis 33 meses. Mas eis que finalmente eu me encontro com os dois pés dentro do trem. Embora, ainda, não saiba para onde esse trem está me levando…

 

Nas ultimas semanas, li “Jango e eu – Memórias de um exílio sem volta”.

O que eu vivo não é exatamente um exílio, mas por quantas vezes tive que pausar a leitura, respirar fundo, olhar para o vazio e refletir sozinha um acho-que-sei-o-que-é-isso-que-você-está-falando.

 

Não existe tempo certo para terminar uma adaptação. Chuto que existam pessoas que tenham se adaptado em dias, algumas em anos (como vem sendo comigo) e há ainda, aquelas que nunca se adaptam a uma mudança deste tamanho.

 

Assim como as árvores, que concentram todas as suas forças e vitalidade nas raízes para que  consigam atravessar o inverno VIVAS, assim foi comigo nos últimos meses também. 

 

Me voltar para dentro foi fundamental para que eu permanecesse em pé nessa hecatombe que desabou diante mim.

 

Como uma pequena muda que cresce quase que imperceptivelmente, assim tem sido o desabrochar dessa nova Camila que caminha para seus 34 anos tendo as duas mãos ocupadas com outras duas mãos estão menores que as dela…

 

E é possivel sim. 

 

Para quem tá chegando agora, o sinal é claro: mind the gap.

 

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